A extrema polarização de ideias é uma tendência triste que vem crescendo nos últimos anos em nossa sociedade. Você deve tê-la notado nas redes sociais especialmente, talvez, na época das últimas eleições. Se você disse X, você é rotulado extrema-direita. Se disse Y, extrema-esquerda. É raro encontrar alguém que seja equilibrado em ideias e capaz de ter diálogos respeitosos e saudáveis com pessoas com as quais discorda.

Como cristãos, em contrapartida, nós somos, sim, chamados a defender nossa fé — tanto na esfera pública quanto internamente, em diálogos acerca de doutrinas. Entretanto, a forma como a discussão ocorre é, creio eu, tão importante quanto o conteúdo da mesma. E não só isso — será que estamos, de fato, discutindo temas que sejam prioridades ou estamos nos polarizando por aquilo que nem sequer deveria ser motivo de separação?

Enquanto eu lutava com essas dúvidas, cada vez mais desmotivada com o cenário atual do cristianismo nesse sentido (especialmente nas redes sociais, onde páginas “reformadas” prontas para ataques “pela defesa da fé” parecem multiplicar-se a cada dia), a leitura de um artigo em especial muito me ajudou. R. Albert Mohler Jr. escreveu para a Tabletalk (revista do ministério Ligonier) um artigo chamado “A call for theological triage and Christian Maturity” (Um chamado à triagem teológica e à maturidade cristã, tradução livre minha ), e eu gostaria de conversar com vocês sobre as ideias trazidas ali.

A necessidade de uma triagem

Mohler teve essa ideia de uma triagem teológica enquanto aguardava para ser atendido em um pronto-socorro. É fácil enxergar a necessidade de triagem em um lugar de atendimento a doentes — não queremos que um paciente com o joelho ralado seja atendido antes de um paciente ferido por uma bala no peito.

O que ajuda as equipes médicas a priorizarem corretamente o atendimento distribuído é a urgência da necessidade, garantindo atendimento rápido àquelas mais agudas. O mesmo pode ser levado, então, para o ramo da teologia — há doutrinas que necessitam tratamento e discussão urgentes, e há doutrinas que podem ser tratadas com menos urgência, sem que uma nem a outra tenha menos importância por isso (lembre-se, elas são separadas por urgência e não importância).

Três níveis de doutrina

Para facilitar a compreensão e criar um método didático para pensarmos nisso, Mohler separa as doutrinas cristãs em três níveis. As doutrinas de nível 1 (ou de primeiro grau), mais urgentes, são aquelas centrais e essenciais à fé cristã, a exemplo da doutrina da humanidade e divindade de Jesus, doutrina da Trindade, doutrina da justificação pela fé, e doutrina da autoridade das Escrituras.

Os credos e conselhos da Igreja Primitiva existiram para que essas doutrinas fossem defendidas com um senso de urgência, atacando as heresias e garantindo a preservação dos alicerces da fé cristã. Negar doutrinas de Nível 1 é negar o próprio Cristianismo em sua essência.

Já as doutrinas de nível 2 (ou de segundo grau) abrem espaço para discordâncias entre cristãos, ainda que sejam importantes de serem discutidas. Aqui colocaríamos, por exemplo, o pastorado feminino e a doutrina do batismo. Batistas e Presbiterianos podem discordar veementemente acerca do batismo, mas isso não dá espaço para que uma denominação acuse a outra de não ser verdadeiramente cristã. Essas doutrinas geralmente causam separação no sentido denominacional, mas não deveriam causar uma divisão total entre crentes. Mas, infelizmente, é nessa categoria que costumamos ver as discussões mais acirradas e as divisões mais profundas.

Por fim, doutrinas de nível 3 (ou de terceiro grau) seriam aquelas que permitem discordâncias mesmo entre irmãos que congreguem em uma mesma denominação, a exemplo dos debates escatológicos. Novamente, assim como no nível anterior, doutrinas dessa categoria jamais deveriam causar divisão dentro do corpo de Cristo.

Urgência, e não importância

Como foi explicado acima, é importante compreendermos que a separação em níveis não compreende importância e sim urgência. Debates escatológicos não devem ser eliminados de nossas igrejas — é preciso buscarmos na Palavra aquilo que compreedemos ser a verdade sobre todos esses temas. Toda doutrina é importante, mas quando não as separamos por urgência arriscamos cair em tremendos erros.

É possível ver esse problema, de forma prática, tanto no cristianismo liberal quanto no fundamentalista. O primeiro enxerga toda doutrina como sendo de terceiro grau, decidindo então não aprofundar-se em discussões e relativizar que tudo seja aceito e abraçado como correto. O segundo erra indo ao outro extremo, vendo toda doutrina como sendo de primeiro grau e causando divisões desnecessárias. Ambos os rumos são prejudiciais à igreja de Cristo.

Como decidir os níveis?

Uma vez que compreendemos a necessidade dessa catalogação, por assim dizer, ainda ficamos com a dúvida: como fazer essa separação e decidir quais doutrinas são de quais níveis? Creio que uma lista de perguntas publicadas pelo teólogo Erik Thoennes em seu livro “Life’s Biggest Questions” (As Grandes Perguntas da Vida, tradução livre minha) pode nos ajudar. Suas sete considerações são:

  1. Clareza bíblica;
  2. Relevância quanto ao caráter de Deus;
  3. Relevância quanto à essência do Evangelho;
  4. Frequência e significância bíblicas (o quão frequentemente é ensinado nas Escrituras, e que peso as Escrituras colocam sobre isso);
  5. Efeito em outras doutrinas;
  6. Consenso entre cristãos (do passado e do presente); e
  7. Efeito na vida pessoal e eclesiástica.

Se colocarmos algumas das questões que têm trazido grande separação na igreja brasileira por essa triagem proposta por Thoennes quantas delas permanecem importantes, e quantas têm nos separado quando não o deveriam fazer?

Irmãos, meu desejo é que sejamos grandes apologetas sim, e defendamos o que é essencial à nossa fé, mas sem causar separação no corpo de Cristo por coisas nas quais podemos discordar. Jesus ama sua noiva e zela por sua unidade. Que não sejamos nós, com nossas discussões humanas, quem a separe. Que Deus tenha misericórdia de nós e nos dê sabedoria para agradá-lo com nossos debates doutrinários.

Francine V. Walsh é autora dos eBooks “21 dias com minha amiga Elisabeth” e “VOCÊ no Ministério Infantil”, e atualmente está à frente da plataforma online Graça em Flor (gracaemflor.com).

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